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Instant Pot

Canjica na Instant Pot: como a gente faz dentro do motorhome

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Canjica na Instant Pot: como a gente faz dentro do motorhome

Canjica é a sobremesa da infância da Fabiola em Belo Horizonte, e é o que ela pede quando esfria o suficiente para a gente parar de cozinhar do lado de fora. O problema é que a gente mora num motorhome nos Estados Unidos, e aqui milho para canjica simplesmente não existe no supermercado.

A boa notícia é que existe, sim, só com outro nome e em outra prateleira. E o jeito que ela resolveu acabou virando uma receita melhor para a estrada do que a original, porque não precisa de molho de um dia para o outro e nem de fogão.

Tudo aqui é de prateleira: uma lata de milho, uma lata de leite condensado, uma lata de leite de coco, uma caixa de leite longa vida e um saco de amendoim. Nada precisa de geladeira até ficar pronto. E cozinha inteiro na nossa Instant Pot (página em inglês) na bateria, sem forno a gás esquentando o trailer inteiro.

Canjica cremosa vista de cima dentro da Instant Pot, com uma espátula apoiada na panela

O milho: o que existe aqui e o que existe no Brasil

No Brasil isso nem é pergunta. Qualquer mercado tem pacote de 500 g de milho para canjica, também chamado de canjicão ou milho branco, e custa quase nada. Deixa de molho de um dia para o outro e pronto.

Nos Estados Unidos, esse pacote não está no supermercado comum. O que tem, no corredor de produtos mexicanos de praticamente qualquer Walmart, é milho branco em lata vendido para pozole, uma sopa mexicana. A lata vem escrita Maíz Blanco Para Pozole. É o mesmo milho branco, só que já cozido.

A Fabiola comprou a lata do tamanho industrial, aquela de restaurante, e falou na câmera que foi a maior lata que ela abriu na vida. Dá umas quatro latas normais. Se você não vai receber gente em casa, compra a lata pequena.

Fabiola na cozinha do motorhome com uma lata grande de milho branco, leite condensado, leite de coco, leite longa vida e amendoim sobre a bancada

E aqui vai a regra que separa canjica boa de canjica sem graça: escorre e lava o milho muito bem na água corrente. O milho de lata vem numa salmoura meio grossa e com gosto de lata, e se você jogar aquilo dentro da panela a sobremesa inteira fica com esse gosto. Lava até a água sair limpa.

Uma curiosidade para quem gosta de saber: o milho mexicano passa por nixtamalização, que é ficar de molho em água com cal para soltar a casca. O milho para canjica brasileiro é degerminado na máquina e nunca vê cal. Por isso o mexicano tem um leve gosto de massa de tortilla. Depois de lavar bem, com a canela e o coco por cima, ninguém percebe.

Se você achar o milho seco

O milho seco dá textura melhor, com o grão mais firme e inteiro. Mercado latino vende como posole, e qualquer mercadinho brasileiro nos Estados Unidos tem milho para canjica de verdade, geralmente Yoki.

Se for por esse caminho, é a única hora em que a pressão da Instant Pot serve para alguma coisa. Deixa 500 g de molho de um dia para o outro, escorre, lava e cozinha na pressão alta com 5 xícaras de água por 30 minutos, deixando a pressão sair sozinha até o fim. Não enche a panela além da metade, porque milho faz muita espuma, e não solta a pressão na força, porque sai espuma pelo pino. Depois é só escorrer e continuar na parte do leite.

Ingredientes

Dá umas 8 porções, o que ainda é mais do que duas pessoas deveriam comer.

  • 2 latas (de cerca de 700 g cada) de milho branco para pozole, escorrido e bem lavado
  • 2 xícaras de leite integral, longa vida serve e é o que a gente carrega
  • 1 lata de leite condensado
  • 1 lata (400 ml) de leite de coco
  • 1 xícara de coco ralado sem açúcar
  • 1/2 xícara de amendoim torrado, moído grosso
  • 1 pitada de sal
  • Canela em pó para servir

Opcional: um pau de canela e 3 ou 4 cravos durante o cozimento, retirados na hora de servir.

Um aviso para quem for fazer isso nos Estados Unidos: o coco ralado americano do corredor de bolo quase sempre vem adoçado, e com leite condensado junto fica enjoativo. Procure o que vem escrito unsweetened.

Modo de preparo

Lava o milho. Abre as latas, joga o milho num escorredor e lava na água fria até a água sair limpa e o grão parar de escorregar na mão. Não pula essa parte. O sabor final depende disso.

Grãos de milho branco lavados num escorredor verde na pia do motorhome

Mói o amendoim com cuidado. Moedor de café ou processador pequeno, pulsando. Você quer uma farofa grossa, que ainda tem textura. A Fabiola passou uns cinco segundos do ponto na filmagem e virou pasta de amendoim, o que continua gostoso mas some dentro da canjica em vez de dar aquela mordidinha. Pulsa, olha, pulsa de novo.

Esquenta o milho no leite. Milho lavado e o leite na Instant Pot, com uma pitada de sal. Liga no Sauté baixo, sem tampa, e deixa chegar numa fervura bem fraca, mexendo de vez em quando. Uns 10 minutos, até esquentar bem e começar a cheirar a milho.

Põe o resto. Leite condensado, leite de coco, coco ralado e o amendoim moído. Mistura bem e deixa em fogo baixo, sem tampa, por 20 a 30 minutos, mexendo o suficiente para não grudar no fundo.

Aqui é onde a pressão estragaria tudo. Leite e leite condensado queimam no fundo da panela, o que no melhor caso dá a mensagem de Burn e no pior deixa a panela inteira com gosto de queimado. Tampa fora o tempo todo e colher raspando o fundo.

Tira do fogo mais ralo do que você quer comer. Ela engrossa esfriando, e engrossa muito mais na geladeira. Serve quente, na tigela, com canela por cima.

Fabiola servindo a canjica pronta da Instant Pot numa tigela

No dia seguinte fica melhor

Essa regra é da Fabiola e ela tem razão: canjica é melhor no dia seguinte. O milho continua bebendo o leite durante a noite, e o que era um mingau ralo vira uma canjica encorpada de manhã. Se passar do ponto, um pouquinho de leite e um minuto mexendo resolve.

Dura uns cinco dias na geladeira. Canjica gelada direto do pote, em pé na cozinha às 6 da manhã, é uma forma legítima de comer e nenhum de nós dois vai fingir o contrário.

Fazendo isso dentro de um motorhome

Como nada vai para a pressão, o gasto de energia é a resistência do Sauté ligando e desligando por meia hora. É um consumo mais longo e mais suave que um ciclo de pressão, e a bateria dá conta tranquilo numa tarde de sol. A gente faz com as baterias já cheias, não de noite. Quem quiser os números do sistema, está tudo na nossa página de energia solar, em inglês.

A outra vantagem é que é receita de despensa. Latas e caixa de leite longa vida ficam semanas rodando dentro do trailer, então dá para decidir fazer canjica numa noite em que a geladeira está vazia e o mercado mais próximo fica longe.

Sobre o nome

Vale lembrar para quem é do Nordeste: aí canjica é outra coisa, aquele creme de milho verde, mais parecido com o que o resto do país chama de curau. O que essa receita faz vocês chamam de mungunzá. Os dois estão certos, é só milho diferente.