Quando as pessoas descobrem que minha esposa é brasileira e que nenhum de nós dois falava a língua do outro quando nos conhecemos, a reação costuma ser alguma versão de “que romântico”.
Não era romântico. Era trabalho.
Quero registrar como era de verdade, porque “nos apaixonamos por um aplicativo de tradução” soa como filme, e a realidade era mais parecida com ser meio surdo nas duas direções durante dois anos.
A história completa de como chegamos até aqui está em Como Nos Conhecemos. Esta aqui é só sobre a língua.
Onde começou
Novembro de 2019. Ela estava fazendo uma transmissão ao vivo, eu estava assistindo, e começamos a conversar.
Ela não falava nada de inglês. Eu não falava nada de português. Não era “um pouquinho”, não era “o suficiente para se virar”. Era zero, nos dois sentidos.
Então absolutamente tudo que passou entre nós nos primeiros meses passou pelo Google Tradutor. Cada piada, cada pergunta, cada detalhe chato de logística sobre que horas eram em cada lugar. Não existia comentário casual. Tudo precisava ser digitado, traduzido, enviado, traduzido de volta e interpretado.
Ela estava aprendendo inglês e melhorando rápido. Eu não estava aprendendo português nem de longe no mesmo ritmo, um padrão que se manteve por sete anos.
A tradução automática em 2019 era pior do que se lembra
A tradução melhorou muito. Se você tentasse isso hoje teria vida bem mais fácil que a nossa, e acho que as pessoas subestimam o quanto era pior naquela época, porque estão pensando na versão que está no celular delas agora.
Era lenta, era dura e engolia coisas. Expressões viravam absurdo. Qualquer frase com mais de uma oração chegava embaralhada. Se eu escrevesse do jeito que eu falo, ela recebia salada de palavras, então aprendi a escrever em frases curtas e chapadas, como quem preenche um relatório.
Só que nada disso é o problema de verdade. Absurdo é óbvio. Você vê o absurdo e pergunta de novo.
O que realmente causava estrago
Às vezes ela invertia o sentido.
Não embaralhava. Invertia. Acrescentava um “não” que eu não tinha escrito, ou tirava um que eu tinha, e produzia uma frase limpa, fluente e completamente segura de si dizendo exatamente o contrário do que eu quis dizer.
Então “gostei muito de conhecer sua família” chegava como “não gostei de conhecer sua família”.
Pense em por que isso é tão pior que uma frase sem sentido. Ela não tinha motivo nenhum para duvidar. Chegava como uma frase normal, vinda de mim. E eu não fazia ideia de que tinha acontecido, porque do meu lado eu tinha mandado algo perfeitamente gentil e estava esperando uma resposta perfeitamente gentil. O que voltava era ela magoada, por uma coisa que eu nunca disse, e aí a gente tinha que voltar atrás pelo tradutor para descobrir o que deu errado, usando a mesma ferramenta quebrada que quebrou.
É assim discutir quando já se está chateado. O instrumento que você tem para consertar é o mesmo que causou o problema.
Com o tempo aprendi a ler a tradução antes de enviar. Toda mensagem. Revisando um português que eu não sabia ler, procurando uma palavra que eu meio reconhecia, tentando pegar uma inversão numa língua que eu não falava. Ajudava. Nem sempre funcionava.
Quatro palavras dentro do carro
Poucos dias depois de chegar ao Brasil pela primeira vez, em fevereiro de 2020, estávamos indo de carro até a casa dos pais dela para eu conhecê-los, e a Fabiola decidiu que eu deveria cumprimentá-los em português.
Prazer em conhecer você.
Ela me treinou o caminho inteiro e eu não consegui. Especificamente, eu não conseguia fazer o erre. O erre do português dentro de um encontro de consoantes assim era um som que minha boca nunca tinha sido chamada a produzir, e nenhuma quantidade de repetição num carro em movimento ia instalar aquilo.
Levei cerca de um ano para conseguir esse som.
É a parte que as pessoas esquecem sobre aprender uma língua adulto. Não é só que você não sabe as palavras. Seu rosto não sabe fazer as palavras. Eu via a frase, entendia a frase, e minha boca retornava um erro.
O outro problema de tradução
Por baixo da questão da língua havia uma segunda, que é o fato de a Fabiola e eu não sermos nada parecidos.
Ela é extrovertida. Ela se apresenta, fica à vontade na frente das pessoas, é boa de sala. Eu sou introvertido e programador. Certas texturas me incomodam. Barulho me incomoda. Mudança de plano me incomoda mais do que seria razoável.
Nunca recebi diagnóstico formal de nada. Mas assisti Love on the Spectrum em algum momento e me reconheci ali com clareza suficiente para parar de buscar outras explicações, e nos anos seguintes, viajando pelos Estados Unidos, conhecemos pessoas no espectro com quem eu me identifico na hora, de um jeito que faz muito sentido olhando para trás. Em algum ponto do espectro é minha resposta honesta.
Junte as duas coisas. Uma pessoa que processa o mundo em voz alta e uma pessoa que precisa que o plano se mantenha, tentando resolver um desentendimento através de um aplicativo que de vez em quando inverte o sentido de uma frase.
Isso é um problema mais difícil que vocabulário. Vocabulário se procura no dicionário.
Onde a gente chegou
Não no meio do caminho. Essa é a parte que eu não esperava.
A Fabiola é fluente. Algumas coisas ainda saem tortas, mas ela se faz entender sem esforço, e já passou do inglês para o problema mais difícil dos sotaques americanos. Ela gosta de sair e fazer coisas, então teve que decifrar line dancing no Alabama, mais Geórgia, mais Flórida, mais o que quer que esteja acontecendo no resto do Sul. Hoje ela coleciona sotaques.
Eu estou lá pelo dia 240 do Duolingo. A gente volta ao Brasil todo ano e a família dela percebe a cada vez que eu sei mais do que sabia. Leio português razoavelmente bem e acompanho boa parte do que ouço. Falar é onde eu desmonto. Qualquer coisa complicada passa por tradutor. Qualquer coisa simples eu resolvo com um punhado de palavras e uma quantidade genuinamente comprometida de gestos, e a família dela entende o que eu quero dizer, e funciona.
Ela aprendeu a minha língua. Eu aprendi o suficiente para me fazer entender com as mãos.
Eu costumava encarar isso como projeto inacabado. É só uma verdade sobre nós. Ela fez a parte mais difícil e fez mais rápido, e o motivo de hoje conseguirmos discutir direito é sobretudo trabalho dela, não meu. Posso dizer isso em voz alta porque não é pouca coisa ser casado com alguém que atravessou uma língua para chegar até você.
O resto, o Brasil e a pandemia e como nós dois fomos parar dentro de um quinta-roda, está em Como Nos Conhecemos.