A primeira coisa que eu fiz quando finalmente cheguei até ela foi espirrar água nela.
Sem querer. Eu tinha comprado uma garrafa no aeroporto de São Paulo para o voo de conexão, e ninguém tinha me avisado que no Brasil você precisa dizer se quer com gás ou sem gás. Eu não sabia que existia a pergunta, então não respondi, e acabei com água com gás que depois viajou pressurizada num avião até Belo Horizonte. Encontrei ela no desembarque, nos abraçamos, abri a garrafa e foi tudo para cima de tudo. Em cima de mim, da minha mochila, do chão.
Era fevereiro de 2020. A gente conversava havia três meses e nunca tinha estado no mesmo cômodo.
Perguntam mais como a gente se conheceu do que qualquer outra coisa sobre nossa vida, incluindo as perguntas sobre morar num quinta-roda. Então aqui está tudo, de uma transmissão ao vivo em 2019 até uma caminhonete e um trailer em Michigan.
Uma observação antes de começar. Este é o lado do Nathan. A Fabiola estava vivendo uma versão completamente diferente dos mesmos acontecimentos, no país dela, na língua dela, vendo um estrangeiro aparecer no meio. Ela está escrevendo a versão dela dessas histórias, e elas vão entrar aqui ao lado das minhas.
Nos conhecemos numa transmissão ao vivo, e nenhum dos dois falava a língua do outro
Em novembro de 2019 eu estava assistindo a uma transmissão ao vivo e a Fabiola era quem estava conduzindo.
Ela parecia uma pessoa genuinamente legal. Era essa a base toda. Havia um problema: ela não falava nada de inglês e eu não falava nada de português.
Então a gente conversava pelo Google Tradutor. Cada mensagem, nas duas direções, passando por uma máquina. Ela estava aprendendo um pouco de inglês e melhorando, mas no começo não havia língua nenhuma em comum entre nós. Só um aplicativo no meio, fazendo o que dava.
Quero ser honesto sobre como aquilo era de verdade, porque não tinha nada de encantador. Era lento, errava com frequência e causava problemas reais que davam trabalho para desfazer. Escrevi um texto inteiro só sobre essa parte: Namorando pelo Google Tradutor. A versão curta é que a tradução era pior em 2019 do que as pessoas lembram, e o truque preferido dela era inverter uma frase para dizer o contrário do que eu disse.
Fevereiro de 2020: comprei uma passagem para o Brasil
Depois de alguns meses assim, decidi que queria conhecê-la de verdade, e que um mês era o tempo certo. Ela me mostraria o Brasil. Eu descobriria se a pessoa com quem eu vinha conversando através de um aplicativo era a mesma pessoa dentro de uma sala.
Eu já estava tranquilo quando a água espirrou em todo mundo, e é dessa parte que eu mais lembro. Todo o nervosismo com os voos, as conexões e as placas de aeroporto que eu não conseguia ler tinha silenciado no segundo em que eu a vi.
Ela, enquanto isso, estava reparando na minha roupa.
No Brasil, viajar de avião é ocasião. Você se arruma. Ela tinha se produzido para me encontrar. Eu voo com frequência suficiente para me vestir pensando em conforto, então desci de uma viagem longuíssima de camiseta e chinelo, encharcado de água com gás. Nenhum dos dois estava fazendo nada errado. A gente só tinha aparecido com ideias completamente diferentes do que aquele dia pedia, antes de uma única palavra ser dita. Isso acabou sendo um prenúncio.
Prazer
Poucos dias depois, estávamos indo de carro até a casa dos pais dela para eu conhecê-los, e a Fabiola decidiu que eu deveria cumprimentá-los em português.
A frase era prazer em conhecer você. Ela me treinou o caminho inteiro.
Eu não consegui falar. Especificamente, eu não conseguia fazer o erre. O erre do português no meio de um encontro de consoantes como aquele era um som que minha boca não fazia ideia de como produzir, e nenhuma quantidade de treino dentro de um carro em movimento ia resolver. Levei cerca de um ano para conseguir esse som. Então passei o trajeto mais nervoso com quatro sílabas do que com conhecer a família.
Aí chegamos e foi tranquilo, porque eles me abraçaram, me sentaram e começaram a fazer perguntas. A família dela também não fala inglês, então lá estava eu fazendo a coisa da tradução numa sala cheia de gente, em tempo real, no celular. Eles tinham muitas perguntas. Um gringo loiro tinha aparecido na casa e eles queriam os detalhes.
A mãe dela fez lasanha, a versão brasileira.
Eu tinha reservado hotel. Praticamente não usei, porque no meio da noite eles falaram para eu ficar, e eu fiquei. Depois disso a casa deles era onde eu estava.
Eles moram no alto de um morro grande, e esta é a vista.
Belo Horizonte é construída sobre morros e as casas sobem todos eles, até o horizonte, em todas as direções. Eu nunca tinha estado em lugar nenhum parecido com aquilo. Ainda paro naquelas janelas toda vez que a gente visita.
Vista incrível, comida incrível e gente que decidiu em mais ou menos uma hora que eu morava ali.
Almoço de domingo na casa da mãe dela
Se você quer a resposta honesta para “qual a melhor comida do Brasil”, não é restaurante. É a comida da mãe da Fabiola, num domingo, na mesa dela. A gente ia quase todo domingo em que morei no Brasil, por dois anos e meio. Foi ali que aprendi a comer feijoada, e foi ali também que encontrei a que eu escolheria primeiro, que é feijão tropeiro. Feijão e farofa cozidos juntos com linguiça, ovo e couve, e torresmo por cima. É prato mineiro e é o que eu peço. Ela também faz frango com quiabo, que é outra coisa de Minas e pela qual eu dirijo bastante.
No mundo lá fora tem a picanha, geralmente numa porção com fritas, que a gente pedia direto. E tem a caipirinha, feita com cachaça, que é muito boa e que eles fazem lá de um jeito que estragou todas as outras que tomei depois.
A única coisa que eu não podia era pão de queijo. É a comida mais famosa de Minas Gerais, está em todo lugar, em toda padaria, todo posto e toda cozinha, e eu tenho intolerância à lactose. Fui morar na capital mundial do pão de queijo e tive que ficar de fora dessa por dois anos e meio.
A gente pretende colocar as receitas brasileiras da Fabiola no site em algum momento, então se você quiser a comida de verdade em vez da minha descrição dela, está a caminho.
Ouro Preto
Ela me levou a Ouro Preto, que eu digo com todas as letras que é minha cidade favorita no mundo. Igrejas barrocas, ruas de pedra que destroem seus tornozelos, minas de ouro por baixo de tudo.
Somos nós naquela primeira viagem, numa sacada sobre uma dessas ruas. Ainda de chinelo.
A gente voltou depois e filmou: A Cidade Mais Bonita do Brasil e o passeio pelo palácio e pela mina de ouro (em inglês).
Uma semana no Rio, durante o Carnaval
A gente também passou uma semana no Rio de Janeiro, num hotel de frente para a praia. Fizemos a lista de turista direitinho. Praia, aquário e o Cristo Redentor lá em cima.
O Rio também me ensinou que andar com o celular na mão não é um gesto neutro. Roubo de celular é comum lá, muitas vezes por alguém passando de moto, e segurar o aparelho à vista é justamente o que marca você como alvo. Cresci em Marquette, Michigan, onde o celular vive na sua mão e ninguém pensa duas vezes. Fiz isso no Rio por mais ou menos um dia, até a Fabiola começar a discretamente me mandar guardar o celular toda vez que ela reparava em alguém. Ela estava lendo a rua o tempo inteiro, num nível em que eu não estava lendo nada. Nunca levaram nada da gente, e isso é em parte porque ela estava prestando atenção.
Eu não tinha planejado a viagem em função do Carnaval. Eu não sabia o suficiente para planejar uma viagem em função do Carnaval. Só calhou de ser quando eu estava lá, então conseguimos ingressos VIP para os desfiles.
Não tenho um jeito bom de descrever para quem nunca foi. Carros alegóricos, bateria que você sente no peito, passistas, uma cidade inteira de gente, português vindo de todas as direções num volume em que o aplicativo de tradução era completamente inútil. Aguentamos até três ou quatro da manhã e saímos antes do fim porque estávamos dormindo em pé, e voltamos de Uber. Teve uma outra noite naquela semana em que voltamos de bicicleta para o hotel no escuro, o que foi um tipo particular de burrice e de coisa boa.
Aqui está a parte em que eu só fui pensar anos depois.
Essa imagem é do meu próprio vídeo, e repare no letreiro. O tema daquele ano era o futuro está em nossas mãos.
Aquilo foi na última semana de fevereiro de 2020. O Brasil confirmou seu primeiro caso de covid-19 naquela mesma semana. Eu estava dentro de uma das maiores aglomerações do planeta, embaixo de um letreiro sobre o futuro, exatamente no momento em que a coisa que ia nos separar por oito meses chegou ao país.
Aí o mês acabou e eu voltei para os Estados Unidos. Isso foi de propósito. A gente queria descobrir o que aconteceria estando longe de novo, se aquilo tudo tinha sido só a novidade de uma viagem.
A gente sentiu falta um do outro. Essa pergunta foi respondida rápido.
Aí aconteceu outra coisa.
A pandemia
Pouco depois de eu chegar em casa, o mundo fechou.
Eu estava em Michigan. Ela estava em Belo Horizonte. As fronteiras fecharam e não havia versão dessa história em que qualquer um dos dois entrasse num avião. Então a relação voltou a ser um telefone, só que agora sem data para acabar e sem próxima viagem para planejar.
Ficamos assim até outubro de 2020. Em algum momento eu percebi que estava esperando por uma coisa que não ia chegar. A pandemia não ia simplesmente acabar. Ia ser uma coisa que continuava, e eu podia continuar esperando ou ir.
Então coloquei máscara, óculos de proteção e luvas e voei para o Brasil para morar.
Esse é o voo de verdade. Acho que nenhuma foto minha jamais me datou com tanta precisão.
Morando juntos, rápido
A Fabiola tinha comprado uma casa pouco antes de eu descer. Então mudamos para lá juntos.
Ela queria namorar devagar. Esse era o plano que ela tinha na cabeça, e era um plano razoável. Ele não sobreviveu a uma pandemia global, uma fronteira fechada e um namorado chegando de outro hemisfério com malas. A gente foi de relação a distância para morar junto num passo só, no meio da pandemia, num país onde eu não conseguia pedir comida sem ajuda.
Deu certo. Mas não quero fingir que pulamos a parte difícil, porque não pulamos.
Aquela casa ainda é nossa, e a gente volta todo ano. Se você quiser ver o lugar que estou descrevendo, filmamos um tour completo: We're Leaving Serenity Behind (em inglês). O vídeo é embalado como a gente guardando o trailer, mas a segunda metade é a casa, a rede no terraço e nossos dois cachorros de rua adotados, o Bolt e a Belinha.
Boa parte do que eu tive que aprender naquele primeiro ano era a própria casa. Toda casa tem portão e garagem para a rua. Não tem torneira de água quente na pia da cozinha, então a louça se lava com água fria. Seu gás chega numa botija que alguém entrega na porta. E o chuveiro é aquecido por uma resistência elétrica que esquenta a água na saída, o que é seguro, o que é normal, o que milhões de pessoas usam todo dia, e para o que eu ainda olho de lado.
Dois anos e meio no Brasil
Trabalhei remoto o tempo inteiro como programador, para a mesma empresa, em horário americano, de dentro de uma casa em Minas Gerais.
Antes de casarmos eu só podia ficar no Brasil um certo número de dias a cada doze meses, o que significava sair do país e voltar para reiniciar a contagem. Normalmente você dirige até uma fronteira. As fronteiras estavam fechadas.
Então, em 4 de fevereiro de 2021, voei até Santiago, no Chile, passei quatro horas lá sem nunca ser admitido no país, e voltei.
Não fui eu que escolhi essa data. Foi o Brasil. Meu prazo corre a partir do dia da minha primeira entrada no país, e minha primeira entrada foi em 4 de fevereiro de 2020, então minha janela virou exatamente um ano depois, no mesmo dia. Passei o aniversário do dia em que a conheci voando para outro país e dando meia-volta na hora. Essa tem texto próprio, porque o que aconteceu nos dois aeroportos é bom demais para resumir: A Viagem de Quatro Horas ao Chile.
Teve também um período em que a vacina existia nos Estados Unidos e ainda não no Brasil, então voltei para casa por um mês, me vacinei e desci de novo.
E por baixo de tudo isso a gente estava descobrindo como ser duas pessoas que não são nada parecidas.
A Fabiola é extrovertida. Ela se apresenta, fica à vontade na frente das pessoas, ilumina uma sala de propósito. Eu sou introvertido e programador. Certas texturas me incomodam. Barulho me incomoda. Mudança de plano me incomoda mais do que deveria. Nunca recebi diagnóstico formal de nada, mas depois de assistir Love on the Spectrum eu me reconheci ali com clareza suficiente para parar de explicar aquilo de outro jeito, e desde então conhecemos pessoas na estrada com quem eu me identifico na hora, de um jeito que faz sentido olhando para trás.
Então: uma artista e um cara que precisa que o plano se mantenha, tentando ter um desentendimento através de um aplicativo de tradução que às vezes invertia o sentido do que ele dizia. É sobre isso o outro texto.
A gente chegou lá. Deu trabalho, levou tempo, e exigiu que ela tivesse paciência com uma versão de mim que chegou sem nenhum contexto.
2021: casamento no Brasil, transmitido para Michigan
A gente se casou em 2021, no Brasil, com a pandemia ainda a todo vapor.
Minha família não pôde vir. Então eu construí uma transmissão para eles. Quatro webcams, software de streaming, alguém trocando de câmera conforme as pessoas se moviam pela sala, nossa própria trilha sonora. Minha família assistiu ao casamento inteiro ao vivo, dos Estados Unidos.
Casar também resolveu o problema do visto. Entrei com a papelada e consegui residência brasileira, e as viagens a Santiago deixaram de ser necessárias.
Dezembro de 2021: a vez dela de ser a estrangeira
Por dois anos eu tinha sido o que não conseguia ler as placas. Aí a Fabiola conseguiu um visto de turista e veio para Michigan, e foi a vez dela.
Eu sou da Península Superior. Cresci no frio e me viro bem no frio. A Fabiola vinha de Belo Horizonte, onde a casa não tem aquecimento nem ar-condicionado porque não precisa muito. Marquette fica na margem do Lago Superior e recebe algo como cinco metros de neve por ano.
Ela nunca tinha visto neve. Não menos neve que isso. Nenhuma.
A gente pousou logo depois de uma nevasca. Ela passou a descida olhando pela janela tentando entender o que estava vendo, porque lá de cima aquilo parece um deserto branco sem nada dentro. Havia mais de um metro no chão. E ela não estava só vendo neve pela primeira vez, estava tentando entender como aquilo funciona. O que faz. O que acontece quando você pisa. Se aguenta seu peso.
Aí saímos do aeroporto para o carro da minha mãe e ela descobriu o que o frio faz com o seu rosto.
Chegamos na casa dos meus pais, onde ficaríamos. Meus pais têm um pastor-alemão branco e grande. A Fabiola tem medo de cachorro que não conhece, e ele estava latindo para ela, então ela anunciou que ficaria do lado de fora.
Do lado de fora. Em dezembro. Em Marquette. Ela estava plenamente disposta a arriscar a sorte com mais de um metro de neve em vez de passar por aquele cachorro.
O que resolveu foi simples. Tiraram o cachorro para ela poder entrar, minha mãe a abraçou, e aí soltaram ele de volta. Ele latiu por um segundo. Depois cheirou ela e acabou ali. Acho que o que realmente a acalmou foi ver todo mundo completamente tranquilo com ele. Hoje são grandes amigos.
A outra coisa com que ela não contava é que lá dentro era quente. Quando sua casa no Brasil não tem aquecimento nem ar-condicionado, “dentro” não é uma categoria que significa o que significa aqui. Ela e a família tinham tentado imaginar como se sobrevive a um inverno de Michigan e tinham chegado em algo como “você se agasalha dentro de casa também”. Ela levou roupa extra de frio esperando precisar dentro da casa.
Essa foi a apresentação dela aos Estados Unidos. Nada de versão leve. A coisa de verdade.
Junho de 2023: Marquette para valer
O green card dela saiu, e em junho de 2023 mudamos para Michigan.
Isso encerrou dois anos e oito meses da minha vida morando no Brasil. Mantivemos a casa em Belo Horizonte, que é por isso que voltamos todo ano, e fomos fazer o caminho inverso.
E é aí que a história de como nos conhecemos termina de verdade. Estávamos casados, ela tinha o green card, e tínhamos um apartamento em Marquette.
O que fizemos depois, perceber que não queríamos estar em cidade nenhuma, e a feira de motorhomes que mudou a pergunta, está em texto próprio.
E vocês falam a língua um do outro hoje?
Não igualmente, não.
A Fabiola é fluente. Algumas coisas ainda saem tortas, mas ela se faz entender sem esforço, e já passou bastante do inglês para o problema mais difícil dos sotaques americanos. Ela sai e faz coisas, então teve que decifrar line dancing no Alabama, Geórgia, Flórida e o que quer que esteja acontecendo no resto do Sul. Ela coleciona sotaques do jeito que outras pessoas colecionam ímã de geladeira.
Eu estou lá pelo dia 240 do Duolingo. A gente volta ao Brasil todo ano e a família dela percebe a cada vez que eu sei mais do que sabia. Leio português razoavelmente bem e entendo boa parte do que ouço. Falar é onde eu desmonto, então qualquer coisa complicada ainda passa por tradutor, e qualquer coisa simples eu resolvo com poucas palavras e uma quantidade bem comprometida de gestos. Funciona. Eles entendem o que eu quero dizer. Não é elegante.
Quase sete anos depois, ela aprendeu a minha língua e eu aprendi o suficiente para me fazer entender com as mãos. Isso é uma verdade sobre nós, não um fracasso. Mais sobre isso em Namorando pelo Google Tradutor.
A parte que eu só percebi escrevendo isto
Conheci minha esposa numa transmissão ao vivo. Quando a pandemia impediu minha família de ir ao casamento dela, montei uma transmissão de quatro câmeras para que eles pudessem estar lá mesmo assim. Hoje nós dois apontamos câmeras para a nossa vida e colocamos isso na internet toda semana.
O mesmo movimento, sempre. Se as pessoas de quem eu gosto não podem estar na sala, construa a transmissão.
Foi assim que a gente se conheceu. Uma transmissão ao vivo em novembro de 2019, uma garrafa de água com gás num aeroporto em fevereiro de 2020, e muitas discussões traduzidas no meio do caminho.