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A Viagem de Quatro Horas ao Chile

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Em 4 de fevereiro de 2021, voei de Belo Horizonte para Santiago, no Chile, passei quatro horas no aeroporto e voltei para o Brasil.

Nunca entrei no Chile. Não há carimbo nenhum no meu passaporte. Estive no Chile no sentido de que meu corpo esteve fisicamente lá, e em nenhum outro sentido.

Aqui está o motivo, e o que aconteceu nas duas pontas.

O relógio

Eu estava morando no Brasil para ficar com minha namorada, hoje minha esposa. Ainda não éramos casados, então eu estava lá como turista, e turista tem um número limitado de dias.

O Brasil conta esses dias dentro de uma janela de doze meses que começa na data da sua primeira entrada no país. Minha primeira entrada foi em 4 de fevereiro de 2020. Ou seja, minha janela virou em 4 de fevereiro de 2021, exatamente um ano depois, no mesmo dia.

Não fui eu que escolhi essa data e não é coincidência. Era o calendário que o governo estava rodando em cima de mim. O aniversário do dia em que a conheci pessoalmente era também o dia em que eu tinha que sair do país.

Normalmente isso não é nada. Você dirige até uma fronteira, atravessa, dá meia-volta, retorna, e o prazo recomeça. O Brasil faz fronteira com dez países.

Era fevereiro de 2021. As fronteiras estavam fechadas.

Então o jeito mais barato de sair do Brasil e entrar de novo no Brasil era voar para outro país, ficar dentro do aeroporto e voltar para casa.

O seguro

O Chile exigia comprovação de seguro de saúde que cobrisse especificamente covid.

Eu tinha seguro. Meu seguro cobria. O que ele não fazia era dizer isso no formato exato que o Chile queria, então no papel eu não tinha nada. É um tipo bem específico de frustração: estar plenamente coberto e não conseguir provar no formato exigido.

Então comprei um seguro viagem por cima do que eu já tinha, puramente para gerar um documento.

Quero deixar claro que fiz tudo direito. Li as exigências, comprei a apólice extra, estava com os papéis. Não fui no improviso.

Santiago diz não

Desembarco em Santiago, eles olham meus documentos e dizem que o que eu tenho não vale. Não é suficiente. Eu não vou passar.

Expliquei a situação, que é uma coisa estranha de ter que explicar para um agente de imigração: eu não quero entrar no seu país. Não estou tentando entrar no Chile. Vou embora em quatro horas. Estou aqui porque preciso de um registro dizendo que saí do Brasil.

E é aqui que fica bom, porque eles resolveram do jeito mais sensato possível. Em vez de processar uma negativa de entrada, me levaram por baixo do aeroporto, pelas áreas de funcionários, os corredores de serviço, e me devolveram do lado do embarque.

Sem entrada. Sem saída. Sem carimbo. Pelos registros do Chile, não tenho certeza de que estive lá.

Quatro horas

Então eu tinha quatro horas dentro de um aeroporto num país onde eu não fui admitido.

Fiz o que se faz. Andei. Fui ao free shop e comprei bala. Sentei.

A Fabiola sabia de tudo o tempo inteiro. Fiquei no WhatsApp com ela durante tudo, narrando. Vale dizer isso porque a maneira óbvia de contar essa história seria como um sufoco em que eu quase fiquei preso lá, e sinceramente não foi essa a sensação. Eu sabia que estava seguindo as regras. Alguma coisa podia dar errado, claro, mas eu tinha uma sensação forte de que ia se resolver, então basicamente deixei rolar.

O que acabou sendo o instinto certo para a parte em que eu ainda não tinha pensado.

O Brasil tem perguntas

Volto para Belo Horizonte e, na chegada, a Polícia Federal olha meu registro e vê que eu tinha acabado de sair do país. No mesmo dia. E agora estou aqui de novo.

Me levaram para a sala da segurança.

A teoria de trabalho deles, pelo que deu para entender, era que eu tinha perdido um voo. Era a explicação que fazia sentido. Homem sai, homem volta na hora, homem deve ter feito besteira.

Então lá estou eu numa sala com vários policiais federais, todos armados, sentados em suas mesas, explicando através do único que falava inglês que não, eu não perdi nada. Voei até Santiago de propósito. Sentei no aeroporto de propósito. Voltei de propósito. Fiz isso para zerar meus dias de turista e continuar morando aqui.

Eles levaram um segundo para digerir. Aí um deles olhou para mim e disse, mais ou menos: você fez tudo isso só para poder ficar aqui no Brasil com sua namorada?

Sim. Foi exatamente isso que eu fiz.

E eles riram, e me liberaram.

A papelada que ninguém filma

A viagem a Santiago é a parte engraçada, então é a parte que eu conto. Não foi a parte difícil.

A parte difícil foi fila. Boa parte do meu tempo no Brasil foi passada em repartições resolvendo papelada, em português, num nível de português que eu não tinha. Consegui uma prorrogação numa dessas idas, o que me deu mais tempo no país e não teve aventura nenhuma.

Essa é a textura real de morar num lugar que não é o seu. De vez em quando você voa para o Chile por quatro horas. Na maior parte do tempo você senta numa cadeira segurando uma senha.

A gente se casou no fim daquele ano, o que me deu residência e encerrou o problema inteiro. Nunca mais precisei fazer a corrida até Santiago.

O resto da história, de uma transmissão ao vivo em 2019 até um quinta-roda nos Estados Unidos, está em Como Nos Conhecemos.