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Como Fomos Morar num Motorhome

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A gente contou para minha mãe que ia comprar um motorhome e se mudar para dentro dele em mais ou menos um ano.

Levou seis meses.

Aqui está como saímos de um apartamento em Marquette, Michigan, para uma Ford F-350 puxando um quinta-roda pelos Estados Unidos, incluindo a parte em que fiquei parado na frente de um engate sem entender como aquilo prendia na caminhonete.

Se você quer os capítulos anteriores, o Brasil e a pandemia e como nós dois nos conhecemos, está tudo em Como Nos Conhecemos.

A gente estava entrevistando cidades

O green card da Fabiola saiu e mudamos para Marquette em junho de 2023. Eu sou da Península Superior de Michigan, então aquilo era casa para mim e um país completamente novo para ela.

Depois de mais ou menos um ano e meio a gente sabia que queria estar em outro lugar. Não sabíamos onde, então começamos a procurar.

Chicago foi a primeira. Fomos, gostamos de visitar, e voltamos com certeza de que não queríamos morar lá. O trânsito fez a maior parte do argumento. Rodamos pelo sul de Michigan. Minneapolis avançou mais que as outras e chegou a ser candidata de verdade, até a gente lembrar que Minneapolis também é extremamente fria, e o frio era justamente uma das coisas de que estávamos tentando fugir.

Nenhuma ganhava. Toda cidade tinha uma versão do mesmo problema: escolher uma significa abrir mão de todas as outras.

Uma feira de motorhomes e um engate que eu não entendi

Minha mãe nos levou a uma feira de motorhomes em Marquette.

Andamos por tudo, paramos num quinta-roda, e eu fiquei ali olhando o engate sem a menor ideia de como aquilo funcionava. Passei a vida inteira perto de caminhonetes e reboques. Já passei por dez mil desses na estrada. Eu não saberia dizer como um se conecta ao outro.

Isso me incomodou de um jeito produtivo.

A ideia caiu nos dois ao mesmo tempo

Quero deixar claro que isso foi decisão dos dois, porque o jeito fácil de contar seria dizer que eu me interessei por uma máquina e convenci minha esposa a morar dentro dela. Não foi o que aconteceu.

Nós dois gostamos de viajar. O problema de viajar é que um emprego te dá um número fixo de dias e depois quer você de volta. Eu já trabalhava remoto, como programador, para uma empresa nos Estados Unidos, e vinha fazendo isso de outro hemisfério havia dois anos e meio, então eu tinha opinião bem formada sobre onde minha mesa precisava ficar.

Se a casa vai junto, os dias deixam de ser o limite. Você não está fazendo uma viagem que acaba. Você simplesmente mora em algum lugar, e depois mora em outro.

Quando dissemos isso em voz alta, a busca por cidade acabou. A pergunta tinha deixado de ser qual cidade e virado se precisava mesmo ser uma cidade.

Uma semana indo até o fundo

Nenhum de nós fazia ideia de como fazer aquilo na prática.

Então passamos uma semana nisso. O que é um quinta-roda e em que ele difere de um reboque comum. Como funciona o engate. Que caminhonete puxa o quê, e o que os números da etiqueta realmente significam. O que quebra, com que frequência e quanto custa quando quebra.

Maratonamos os canais de YouTube de outras pessoas por horas. Foi genuinamente assim que aprendemos a maior parte. Muita gente que já morava na estrada tinha feito o vídeo de cada dúvida que tínhamos.

O canal veio antes do trailer

Em algum momento dentro daquele apartamento, antes de termos caminhonete, reboque ou qualquer outra coisa, decidimos que íamos filmar tudo.

Ou seja, este canal é um pouco mais velho que nosso trailer. Os primeiros vídeos são só a gente em Marquette, fazendo coisas normais. Depois fizemos algumas viagens e filmamos e editamos, principalmente para descobrir como filmar e editar funcionam, que é uma habilidade à parte e que nenhum de nós tinha.

Isso acabou importando mais do que esperávamos. Quando surgiu um trailer para documentar, a gente já tinha cometido os erros de iniciante em imagens que ninguém estava esperando.

Serenity

Quase encomendamos um Brinkley Model Z 3100.

Pouco antes de fechar o pedido, a Brinkley lançou o 3515. A diferença que importou para nós é o escritório nos fundos. Eu trabalho de onde estivermos estacionados, e um espaço dedicado para isso não é luxo quando é de onde vem sua renda. Trocamos o pedido.

Esse trailer é o Serenity, e ele continua sendo nosso primeiro e único. Tudo neste site desde então aconteceu dentro ou em volta dele.

A parte em que eu penso

Passamos meses tentando responder “onde a gente deveria morar” e a resposta acabou sendo que a pergunta estava errada.

Não é que a vida de motorhome seja melhor que uma cidade. Várias coisas nela são piores, e já filmamos a maioria: os ratos, os vazamentos, o dia em que a bomba de dejetos morreu no meio do esvaziamento. É que a gente parou de ter que escolher um lugar e abrir mão do resto, e para duas pessoas de dois países diferentes, cada uma com saudade de uma casa sempre que está na outra, essa troca fez mais sentido do que faria para a maioria.

A gente ainda tem a casa em Belo Horizonte. Voltamos todo ano. E no meio disso estamos em outro lugar, que é justamente o objetivo.